Poucas pessoas podem dizer que enfrentaram uma onça-parda em um combate corpo a corpo e sobreviveram para contar a história. O agricultor Demétrio, de 76 anos, morador da comunidade de Boa Vista, no interior de Toledo, no oeste do Paraná, agora faz parte desse grupo extremamente raro.
O ataque aconteceu no fim da tarde da última terça-feira, em uma área de mata às margens de um pequeno rio dentro da propriedade rural. O local, cercado por vegetação nativa e utilizado com frequência para pesca, tornou-se cenário de uma luta pela sobrevivência que durou apenas alguns segundos, mas que ficará marcada para sempre na memória do agricultor.
Segundo o relato de Demétrio, ele deixava a margem do rio quando percebeu a aproximação repentina do felino.
"Quando olhei para o lado, dei de cara com a onça. Ela veio para cima de frente", relembra.
Sem tempo para correr ou buscar abrigo, ele afirma que tomou a única decisão possível: enfrentar o animal.
"Se eu tivesse me assustado, ela me carregava. Não dava tempo para correr. Era eu ou ela."
O primeiro ataque atingiu o braço esquerdo do agricultor. As marcas profundas das garras ainda permanecem visíveis dias após o ocorrido.
Na tentativa de proteger o rosto e o pescoço — regiões onde normalmente grandes felinos concentram os ataques fatais — Demétrio ergueu o braço para bloquear a investida.
Foi nesse momento que reagiu.
Segundo ele, conseguiu acertar um forte golpe na região do queixo da onça, desequilibrando o animal.
"Dei um soco no queixo dela. Quando ela caiu, fui para cima e peguei a pata esquerda. Forcei bastante. Acho que machuquei ela. Foi aí que desistiu de mim."
O agricultor acredita que conseguiu impedir que o felino utilizasse a mordida, fator que considera determinante para sua sobrevivência.
"Das unhas você ainda escapa. Dos dentes, não."
Apesar da idade, Demétrio mantém boa condição física. Durante décadas praticou judô, karatê e outras modalidades de artes marciais.
Ele acredita que essa experiência foi decisiva para manter o controle emocional durante o ataque.
"Não passa nada na cabeça. Você pensa na sua vida. Se não fosse o preparo físico, eu tinha morrido."
Mesmo após viver um dos momentos mais dramáticos de sua vida, ele impressiona pela serenidade ao recordar os acontecimentos.
"Quem sabe mais para frente não tenho que enfrentar outra de novo?"
Dias após o ataque, ainda é possível observar vestígios do confronto.
No chão permanecem marcas da movimentação intensa durante a luta. Em uma árvore próxima, Demétrio mostra o ponto onde acredita ter batido as costas enquanto tentava se desvencilhar da onça.
As imagens registradas no local também mostram os ferimentos provocados pelas garras do animal, especialmente no braço esquerdo, onde os cortes profundos evidenciam a violência do ataque.
Pela aparência observada durante o confronto, o agricultor acredita que a onça-parda estava abaixo do peso.
Segundo ele, o felino aparentava estar magro e fisicamente debilitado.
"Era um animal magrelão. Acho que não tinha mais que quarenta quilos."
Embora essa percepção seja apenas uma avaliação pessoal, especialistas explicam que animais debilitados, idosos ou com dificuldade para caçar podem apresentar comportamentos diferentes dos habituais, aproximando-se de áreas ocupadas por pessoas em busca de alimento.
A região onde ocorreu o ataque possui diversos fragmentos de mata nativa interligados por cursos d'água, formando corredores ecológicos utilizados por diferentes espécies da fauna silvestre.
A presença de onças-pardas no oeste do Paraná não é considerada incomum. O felino habita diversas áreas do estado e normalmente evita qualquer contato com seres humanos.
Ataques são extremamente raros e, na maioria das vezes, acontecem quando o animal se sente acuado, está protegendo filhotes, encontra-se ferido ou debilitado ou é surpreendido a curta distância.
Por isso, autoridades ambientais orientam que qualquer avistamento seja comunicado imediatamente aos órgãos competentes, evitando aproximações ou tentativas de captura.
Durante as gravações realizadas após o ataque, Demétrio aparece segurando uma arma de fogo enquanto retorna ao local onde ocorreu o confronto.
Segundo informações confirmadas pela família, a arma está regularmente registrada e documentada, dentro da legislação vigente.
O equipamento foi utilizado apenas durante a visita ao local dias após o ataque, em razão do receio de um novo encontro com o animal. Não houve disparos contra a onça durante o confronto ocorrido na terça-feira.
Casos documentados de ataques de onça-parda contra seres humanos são considerados excepcionais no Brasil.
Sobreviver a um confronto físico direto com um grande felino é ainda mais incomum.
Aos 76 anos, Demétrio carrega agora não apenas as cicatrizes deixadas pelas garras da onça, mas também uma história que dificilmente será esquecida pelos moradores da região.
Enquanto mostra as marcas no braço, ele resume em poucas palavras o que viveu naquele fim de tarde.
"Era ela ou eu."