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PF estuda transferir Lula de prédio em Curitiba para quartel do Exército
A exemplo do que já acontecera com Juscelino Kubitschek em 1968,
Por Bem Paraná com O Globo | Postado em: 11/04/2018 - 08:58

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá ser transferido em breve da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. 

Segundo informações do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, a avaliação da PF é de que a presença do ex-presidente, movimentos sociais e imprensa na região do bairro Santa Cândida, onde fica a sede da PF, estaria inviabilizando o dia a dia dos policiais.

Uma opção, então, seria transferir o petista para um quartel do Exército, a exemplo do que já acontecera com Juscelino Kubitschek em 1968, quando o "Presidente Bossa Nova" ficou preso num quartel em Niterói.

Para que tal transferência aconteça, porém, será necessária uma autorização do juiz Sérgio Moro.

Tensão crescente

Após três noites da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o acampamento de vigília permantente no bairro Santa Cândida já ocupa uma área quatro vezes maior do que no primeiro dia. Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), cerca de mil pessoas ocupam o entorno da Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba, em sua maioria sem-terra, mas há também sindicatos e outros movimentos de esquerda.

Acontece, porém, que muitos moradores da região não estão gostando nada do que está acontecendo e reclamam da falta de sosssego e de uma suposta infestação de ratos nas casas que seria resultado da sujeira deixada pelos manifestantes.

"São pessoas aposentadas que moram aqui, com mais de 80 anos, numa rua que era pacífica", reclama Vivian Comin. "Estamos pedindo socorro para o Moro. Deve ter uma lei, não é possível", emenda Silmara Gomes Oliveira, que relatou ainda ter sido ameaçada por um manifestante. "Fui reclamar e ele veio para cima de mim. Um repórter (da CNN espanhola) filmou, mas fizeram ele apagar o vídeo."

Nos discursos, contudo, fica evidente que a questão transcende os transtornos causados pela manifestação, evidenciando preconceitos e intolerância política. "São pessoas que dão medo na gente, dão medo de verdade. Isso é um acampamento, um assentamento de sem terra, e aqui são pessoas (os moradores) que pagam imposto, que mantém suas gramas em ordem, que mantém tudo em dia, e acabam passando por isso por um cara que roubou, gente? Não tem mais condições e se ninguém fizer nada vai começar a população a dar tiro nos caras, é simples", ameaça Viviane. "Queremos sossego, que esse povo com camisetinha vermelhinha vá trabalhar como a gente está trabalhando."

Outros moradores, no entanto, já convivem de maneira mais pacífica com os manifestantes acampados. É o caso de Ricardo Luís Basílio, que afirma estar sendo bem tratado pelos 'novos inquilinos'. "Existe um certo transtorno, aqui era uma região bem calma, mas faz parte. É a luta, né, a vida é assim", conta Basílio, que teve o poste de luz de sua casa derrubado após a passagem de um ônibus com manifestantes. "Subimos para ver o que está acontecendo, conversamos com a organização e eles trataram bem, pediram paciência que no final ia tudo ficar bem".

A situação já foi resolvida com a doação de uma empresária de Curitiba, Rosane Amorin Gutiar, que é militante e quis ajudar. Ela pagou R$ 1 mil ao morador pelo transtorno. “Sou uma militante socialista. Vim aqui por outro motivo. Tomei conhecimento e fiz a doação. A gente tem que fazer a nossa parte. Foi o valor do poste e a mão de obra”, conta. Todas as doações são registradas em um livro pela organização do acampamento.

Outro morador com relado amistoso ao movimento é Jorge Carlo Silva. "Eles (manifestantes) estão tudo beleza, estão obedecendo, bem organizados. Inclusive eu tenho uma extensão para carregar o celular deles ali", declara. "Eles estão quietões, nao dão problema. Sou leigo nisso aí (política), estou ajudando mais por uma questão de solidariedade", diz o aposentado, que afirma ainda se sentir seguro ao ponto de poder dormir com o portão de casa aberto.

Polêmica dos ratos

Outros moradores ouvidos na região do acampamento apontaram uma versão diferente para o caso dos ratos que estariam aparecendo na região. Uma aposentada que preferiu não se identificar, por exemplo, explicou que o local onde fica o prédio da Polícia Federal, onde Lula está preso, era para ter sido construído um hospital, durante o governo Jaime Lerner. Como a unidade não saiu do papel, o prédio acabou virando a sede da PF em Curitiba.

Só que atrás desse prédio existe um bosque que era particular, foi desapropriada e doado para a União. No final desse bosque há um rio, de onde estariam vindo os ratos e "baratonas do mato" - algo que, segundo a aposentada, acontece desde sempre por ali.

Regras

Chamado de 'Acampamento Lula Livre', a vigília segue cronograma e regras estabelecidas por uma comissão de integrantes da Frente Brasil Popular, que congrega não só o MST, mas outras 40 entidades de esquerda. Na medida em que o acampamento se estabelece, as estruturas se tornam mais consolidadas. Há um posto de saúde com ambulância, posto de coleta e armazenamento de doações, barraca da comunicação interne e externa, das lideranças e outras.

Os integrantes são divididos em equipes e cada uma tem sua responsabilidade. Uma delas deve recolher todo o lixo e dar destinação correta. Como o caminhão da coleta da prefeitura não consegue acesso ao perímetro de um raio de cerca de dez quadras estabelecido pela Polícia Militar (PM), os integrantes da vigília têm recolhido o lixo produzido pelos moradores e encaminhado aos pontos de bloqueio. Uma cooperativa também teria sido acionada para recolher o material reciclável separado pelos manifestantes.

Um dos principais problemas é sanitário. Há apenas seis banheiros químicos para uso dos cerca de mil militantes. Com isso, alguns moradores têm se oferecido para dar acesso aos banheiros das residências. “Os moradores oferecem cinco banhos, por exemplo. Aí sabemos que aquela casa tem esse espaço. Quem vai tomar banho fala com a gente e encaminhamos àquela casa, até que se esgote esse número oferecido”, conta uma das organizadoras do acampamento Rosimari Gomes, ligada à APP-Sindicato.

No início da manhã, os grupos fazem um ato na esquina mais próxima do prédio da PF, chamada pelos militantes de 'Praça Olga Benário'. É o ato 'Bom Dia Presidente'. Neste momento, em jogral, lideranças lembram das regras, como evitar bebidas alcoólicas e manter o silêncio após às 22 horas. 

A agitação, porém, em alguns momentos é inevitável, o que gera reclamação dos moradores. "Mesmo que eles tentem, sempre fica um barulho. E não temos muita privacidade", reclama uma moradora que pediu para não ser identificada. Ela, porém, se mostra conformada e confiante com uma pacificação do impasse. "Logo eles vão embora e vamos ter história pra conta", diz a aposentada.  

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